Kwid 2027 na guerra do preço, ele é melhor que C3 e Mobi?

O novo design e mais equipamentos na versão intermediária convencem?

19/10/2026 - Rods / Fonte: iCarros

O brasileiro quer carros mais baratos? Sim, mas a qual custo? Ficou claro que o conceito de carro popular mudou de lugar.

Antes, leia-se 2010, tínhamos ofertas interessantes a R$ 29.990, e destaco o Volkswagen Fox, Fiat Palio Celebration, Ford Fiesta e Chevrolet Classic. Mas o mundo e o mercado mudaram. Os carros 0 km mais baratos da atualidade se encontram na faixa de R$ 70 mil e subindo. É culpa da carga tributária? É o salário mínimo? Poderíamos pensar em múltiplas razões. Mas vamos fazer essa avaliação sob um ânimo melhor, certo?

Dirigi o Renault Kwid em seu lançamento, lá em 2017. O carro tinha a proposta de ser um subcompacto de entrada, barato e simples. Custava entre R$ 30 mil e R$ 40 mil, o que nunca foi um grande destaque para o consumidor que queria um carro em conta para o dia a dia e que olhava o Kwid com algum desdém. Mais do que isso, a pessoa física queria sentir seu dinheiro devolvendo conforto, segurança e, claro, algum orgulho pela conquista.

Ficou claro que o Kwid tinha um propósito: ser um excelente produto para o frotista, um carro econômico e de baixa manutenção para os motoristas de aplicativo e, claro, para o consumidor final, um carro racional, sem vaidades, mas que cumprisse seu papel mais fundamental: o de ir do ponto A até o ponto B.

Molho indiano

O projeto indiano do Kwid revela duas prioridades do carro: extrema simplicidade e baixo custo. À época, muito se falou da questão de segurança pelo uso de apenas 3 parafusos de fixação em cada roda, além do reforço local dos freios traseiros.

O Kwid no Brasil assumiria um papel um pouco mais denso, pois, no roteiro brazuca, a legislação pega mais pesado no quesito segurança. Por isso, a Renault se mexeu rápido e entregou melhorias para garantir que o carro estivesse em dia com o compliance.

Corta pra 2027

Durante o Festival Interlagos, a Renault apresentou a linha 2027 do Kwid. Facelift, novo padrão de acabamento e mais equipamentos de tecnologia. A primeira impressão foi ótima.

O novo para-choque dianteiro, com destaque em preto fosco na porção central, entrega um visual mais robusto e, ao mesmo tempo, consegue destacar linhas de design bastante agradáveis. No conjunto óptico superior temos o DRL em LED junto das luzes de seta e, logo abaixo, o farol principal com lâmpadas halógenas.

Neste ponto, o carro se sobressai por entregar tantos elementos que trabalham juntos em visual e segurança num projeto de entrada. Nos anos 90, a solução seria um bloco único, com todos os elementos socados lá dentro, simplificando o design.

Não acho que o Kwid seja tão elaborado quanto um Kardian, mas não dá pra negar que a Renault se empenhou em dar um fôlego novo ao visual.

Na lateral, rodas de aço com calotas de pressão e pneus Pirelli Cinturato P1 165/70 R14. O conjunto é o bastante para lidar com o baixo peso do carro, na casa dos 850 kg, a depender da versão, e com o motor de 71 cv, que falaremos mais adiante. Porém, para fins de maior estabilidade em curvas e em dias mais chuvosos e, claro, mais eficiência durante as frenagens, um conjunto maior, de aro 15” e mais largo, seria muito bem-vindo.

A traseira sofreu poucas mudanças. Novo emblema e lettering Kwid, abertura elétrica do porta-malas e nova antena de teto, que agora é do tipo shark, localizada na seção traseira do teto. Para alguns, é um alívio, já que o Kwid anterior tinha uma antena absurdamente grande e móvel, criando o meme: Kwid na rua, antena na lua.

Já na parte interna, o destaque vai para o painel como um todo. Novo volante, cluster central digital de 7”, nova multimídia de 10” herdada do Kardian, nova padronagem nos tecidos dos bancos e um aplique azul-claro por toda a extensão do painel. Mudanças muito bem-vindas para o compacto de entrada, que ficou com cara de “mais caro”.

De maneira geral, a renovação estética e technológica do Kwid Techno 2027 chega para melhorar o argumento de venda, pra brigar melhor contra seus concorrentes e pra deixar o produto em dia com a proposta atual da marca.

SUV ou subcompacto?

Graças a uma mera questão técnica, o time de marketing da Renault trabalhou um pitch muito forte: o Kwid é o SUV dos compactos.

Bem, a gente sabe que não se trata, de forma alguma, de um produto desta categoria. O vão livre do solo do Kwid é avantajado, 18,5 cm, mas nunca foi um “Veículo Utilitário Esportivo” e, talvez dessa sigla, ele aproveite apenas a letra V.

Falando de tamanho e espaço, um destaque é a capacidade do porta-malas. Não que seja gigante, porém, comparando com seus concorrentes, ele se sobressai. São 290 litros, entregando estepe e ferramentas, contra 215 litros do Fiat Mobi e 315 do Citroën C3. Ele consegue isso fazendo uma troca: menor volume do tanque, que tem apenas 38 litros. Novamente, Fiat Mobi e C3 têm 44 e 47, respectivamente.

Dá pra entender o que cada um prioriza aqui?

O entre-eixos, claro, é compacto. Apenas 2,42 metros para cinco pessoas se acomodarem no pequeno habitáculo. Não existe milagre: o carro é apertado pra quem for no banco de trás. No caso dos motoristas de aplicativo, que costumam puxar o banco dianteiro direito pra frente pra liberar mais espaço, tá tudo certo. O passageiro que embarca pela porta traseira direita terá bom espaço.

O simples que funciona

O conjunto motor e câmbio é interessante. Aqui na redação do icarros sempre recebemos carros automáticos, turbos, híbridos e elétricos, porém o Kwid nos fez lembrar dos primeiros carros que tivemos na vida. Pra citar alguns: Celta 2001, Palio 2002, Peugeot 206…

O motor é o 1.0 SCe aspirado de 3 cilindros flex, que gera até 71 cv no etanol e torque máximo de 10 kgfm com o mesmo combustível. A transmissão é manual de 5 velocidades. O cenário é o mais trivial possível.

A aceleração pede sua paciência: 14 segundos pra sair de 0 a 100 km/h e máxima de 159 km/h.

Essa simplicidade novamente foca em baixo custo de propriedade. Tudo simples e funcional e, em troca, você ganha um bom consumo de combustível. Medi o consumo apenas com gasolina e chegamos perto do que o Inmetro homologou: na cidade, fiz 13,5 km/l contra os 14,4 km/l homologados e, na estrada, 17,5 km/l.

Surpresa boa na estrada, já que consegui 2 km a mais por litro.

Como anda?

Em um carro de entrada, você ajusta suas expectativas. Tudo é mais simples. Vamos lá!

De cara, você acessa o carro com uma chave canivete com botões de abertura e fechamento das portas e do porta-malas. Lembra daquele básico que funciona? E, claro, pra dar a partida, você coloca a chave no miolo de partida. Uma coisa a menos pra ficar solta dentro do carro.

Não há regulagem de altura do banco nem regulagem do volante, então logo você está pronto pra dirigir, do jeito que der. Não é ruim, já que tudo está tão perto das mãos.

Eu preciso lembrar que não sou referência em altura média brasileira, então, em alguns momentos, me senti o Senhor Incrível ao volante. Lateralmente, não há espaço de sobra, não há acabamentos cuidadosos nas portas, nada de extras. Plásticos simples dominam a cabine, mas lembre-se da proposta: aqui não tem narcisismo. Bruto e sistemático na linguagem da internet.

Fique surpreso com a arrancada do Kwid. Talvez fosse o tempo longe de câmbios manuais, mas que coisa boa é você dar um comando e o carro prontamente responder.

O mesmo não se pode falar nas ultrapassagens e retomadas em alta, pois aí a conversa é mais parcimoniosa mesmo.

Eu esperava que a Renault tivesse trocado os coxins de motor do Kwid, mas suspeito que isso não tenha acontecido. As vibrações do motor de 3 cilindros vêm sem escrúpulos para dentro da cabine. Isso sem falar do ruído.

Em velocidade de cruzeiro, tudo fica mais suave, mas, no dia a dia, é algo ruim de sentir o tempo todo. O Hyundai HB20 continua, em minha opinião, um dos melhores 3 cilindros em termos de vibração. Tudo lá é bem suave e confortável.

Nada de se emocionar. Curvas com cuidado, frenagens pensadas e, assim, o Kwid vai exigindo do motorista maior previsibilidade ao volante. Não estou falando de dirigir com medo, mas ciente do equipamento que se tem em mãos.

Fazendo um recorte, para quem usa o carro pra trabalhar, em telecom, por exemplo, o porta-malas se destaca demais e dá pra resolver tudo com ele. Porém, se precisar de mais espaço, é só rebater o banco traseiro, que não é bipartido, mas é funcional mesmo assim.

Visibilidade boa, boas respostas, ruidoso em alguns momentos e equipado com tudo que manda o figurino de hoje em dia.

O Kwid nesta versão, que é a ideal pra pessoa física comprar, é um parceirinho no uso urbano, vai ajudar em viagens e curvas e, acima de tudo, vai deixar sua conta corrente mais saudável. A economia de combustível, o baixo custo de propriedade e o preço de aquisição ajudam o bolso do brasileiro.

E o PIX, nada ainda?

A unidade testada custa R$ 75.990, mas, na tabela, é R$ 10.000 a mais. É uma dura missão para a Renault precificar o Kwid. Ou ela dá o carro com margem zero ou cobra o preço de acordo com o mercado.

Quer um Kwid mais barato? Tem a versão Evolution por menos de R$ 72 mil, mas é aquela versão mais pro frotista, menos equipada, sabe?

Porém, pagar mais de R$ 75 mil por ele pode ser um movimento não muito positivo do ponto de vista do custo-benefício. Nesta faixa de preço, você já encontra ofertas de VW Polo Track e, se botar uma grana a mais, até dá pra levar um BYD Dolphin Mini pra casa!

Sacou? A versão Techno do Kwid é a única possível para o consumidor final. Você tem total liberdade de pegar a versão que mais te agrada, mas pode talvez estar deixando pra trás algum bom concorrente.

O Renault Kwid brilha mesmo é na aplicação profissional: frotista, carro de aplicativo e até pra alugar. Já o usuário final que deseja máxima discrição e baixo custo, o Kwid se encaixa perfeitamente, literalmente.

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